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Plantio de árvores e idéias

Uma gigantesca operação de plantio de mudas de árvores programada para acontecer na manhã de um domingo, destinada a reflorestar trechos das margens de um rio, num total de trezentos mil metros quadrados, transcende em relevância à dimensão prática da própria arborização, na medida em que proporciona um estímulo necessário a outros aspectos da cidadania.

Um dos pontos positivos é a mobilização da comunidade. As cinqüenta mil mudas teriam o mesmo impacto ambiental e seriam, de toda forma, um ganho significativo para a população se plantadas pela Prefeitura ou por alguma empresa terceirizada. Isso, no entanto, pouco acrescentaria à coletividade em aspectos como consciência, atitude, participação, união e tantos outros, sempre presentes nas ações cooperativas.

Ao condicionar a realização do plantio à necessidade de participação voluntária e coletiva, os organizadores inserem o evento na categoria das ações transformadoras, já que convidam a uma tomada de consciência sobre a capacidade de realização das pessoas, quando unidas em torno de seus objetivos.

O morador que se dispuser a plantar dez mudas terá, por toda a vida, um olhar diferenciado para essas árvores, em relação àquele que apenas passa e as vê crescerem.

Um homem, atuando sozinho, arrisca-se a exaurir suas forças sem conseguir vencer as dificuldades que se apresentam na realização de uma tarefa, mas isso não se verifica quando esse mesmo homem se propõe a trabalhar em grupo, e descobre que pode despender um esforço mais focado obtendo, pela soma das ações, resultados muito maiores. É nesse sentido, certamente - no da capacidade de transmudar desejos em ações, pela colaboração com pessoas com quem se tem afinidade em pensamentos e quereres -, que o aparente paradoxo do verso de Raul Seixas, “sonho que se sonha junto é realidade”, se evapora dando lugar a uma verdade cristalina.

Outro aspecto importante do mutirão de plantio é a sensação de comprometimento que ele proporciona. Quem planta uma árvore - assim como ocorre em tantas ações humanas, ao longo da vida - desenvolve um vínculo inesgotável com aquilo que produz. O morador que se dispuser a levantar cedo e plantar dez mudas no bairro onde mora, terá por toda a vida, um olhar diferenciado para essas árvores, em relação àquele morador que apenas passa pela rua e vê as mesmas árvores crescerem. Saint-Exupéry definiu bem essa sensação de compromisso que brota da (inter)ação, com a máxima segundo a qual uma pessoa se torna “eternamente responsável” pelo que cativa. É diferente a atitude em relação àquilo em que se tem alguma participação, e por isso, de antemão, pode-se afirmar que não é apenas um batalhão de plantadores o que se verá surgir amanhã. É um contingente de fiscais do verde, que estará sempre ocupado, de alguma maneira, com o destino das plantas e dos bichos, dos mananciais e das matas.

Se não bastassem todos esses aspectos positivos, tem-se ainda o fato de que as mudas são, em parte, produzidas pelos detentos de um presídio local, o que confere a esses homens privados de liberdade a oportunidade de, ainda assim, se sentirem socialmente ativos e produtivos, e integrados de alguma maneira a um momento importante da vida da comunidade.

Muito ainda se poderia falar sobre os efeitos benéficos do megaplantio: o impacto na atitude geral em relação ao verde, a valorização do meio ambiente como elemento indispensável à qualidade de vida; os efeitos positivos que a arborização das margens trará para o rio e para os peixes, pássaros e animais; o favorecimento à percepção de que é possível batalhar por um clima melhor e por um ar mais puro, sem prejuízo de outras demandas importantes como saúde e segurança, por exemplo. A lista é grande e o espaço, limitado. Fica, portanto, o convite para que a população abrace essa idéia e participe do plantio, colaborando para gerar um impacto altamente positivo no meio ambiente e, de maneira mais ampla, na própria cidadania.



Fonte de pesquisa: Jornal Cruzeiro do Sul















 
 
 
 
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