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Mata atlântica: Impossível de ser reproduzida pelo homem

Mesmo diante de um sonoro NÃO da ciência e de exemplos bastante convincentes, contrários à idéia, tem-se difundido que o homem pode reproduzir ou restaurar a integridade de um ecossistema tropical tão complexo como é a mata Atlântica, através do plantio de algumas mudinhas de árvores. A idéia beira a ficção científica. É claro que não podemos deixar de valorizar o esforço das pessoas, que na mais pura das boas intenções, querem ajudar a todo o custo na reparação do dano causado e, como forma de satisfação pessoal, observar os resultados a curto prazo. Contudo, na inocente forma de “ajudar” a natureza pode-se, em vez disso, prejudicá-la, contaminando os ecossistemas com a introdução de espécies de outros lugares - uma mesma espécie de árvore, por exemplo, pode apresentar variações genéticas em suas populações de diferentes regiões separadas, às vezes, por uma distância não muito maior do que 100 km.



Então, o que devemos fazer para salvar a mata Atlântica? Devemos ficar de braços cruzados, já que temos que resistir à tentação de plantar algumas mudinhas de árvores porque estamos atrapalhando? A resposta para esta segunda questão é quase afirmativa. Mas, antes de prosseguir, devemos indagar o seguinte: quando se diz “proteger a mata Atlântica”, afinal de contas, queremos proteger a mata Atlântica de quem? Quem ameaça a mata Atlântica? São os ET’s? Não, evidentemente. É o homem que tem levado a mata Atlântica a esta situação de quase extermínio. Então, a mata Atlântica deve ser protegida de nós mesmos. Não mexer mais nas áreas remanescentes é uma das medidas mais positivas em prol de sua possível recuperação.

Embora a mata Atlântica esteja arrasada, restando em torno de 17% em Santa Catarina (e 7% no País), sendo menos de 1% de florestas intactas e o restante de florestas secundárias, ou seja, que já foram destruídas e naturalmente estão se recuperando, ela tem uma extraordinária força de auto-regeneração, desde que, é claro, ainda ocorra uma área bem preservada nas proximidades com toda sua integridade em termos fauna e flora. Obviamente, esta condição está difícil de ser satisfeita em muitos lugares, mas, se a destruição for detida, ela ainda poderá ser satisfeita em muitas regiões de Santa Catarina, como no norte do Estado, na serra do Mar e adjacências.

E que força é essa capaz de replicar as florestas remanescentes? São os bichos, insetos, os ventos, os micro-organismos decompositores etc., ou seja, tudo o que faz parte da própria mata Atlântica. Só para dar um exemplo da força da natureza, um único pássaro é capaz de em um ano espalhar 100 mil sementes de árvores como o palmito e a canela; e se considerarmos sementes minúsculas como das figueiras e embaúbas esse número anual chega aos milhões. Ou seja, um único pássaro ou um morcego é capaz de produzir mais mudas de árvores nativas do que muitos viveiros. Além disso, os animais não discriminam outras plantas, como os cipós, por exemplo, que na floresta atlântica são tão importantes quanto às árvores: há cipós cujos frutos são apreciados por uma parcela significativa da fauna, mais até do que muitas árvores consideradas bagueiras (baga significa um fruto, muito apreciado pela fauna). Sem falar das plantas aéreas que vivem fixadas nas árvores, como as bromélias, orquídeas, cactos-de-árvore (ripsalis) etc., cada uma com sua função ecológica tão importante quanto as árvores que as suportam.

Em toda a extensão da mata Atlântica no Brasil, temos mais de 20 mil espécies de plantas e 2160 espécies só de animais vertebrados (mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes). Espécies de animais invertebrados, como os insetos, por exemplo, temos aos milhares, nas mais bizarras formas. E todos estes organismos vivem de formas interdependentes. Portanto, só o plantio das espécies de árvores – a mata atlântica de Santa Catarina tem 714 espécies – não resolve o problema. Cabe aqui as palavras de um dos mais renomados botânicos brasileiros, o Prof. Dr. Ademir Reis (UFSC): "precisamos nos desvincular dessa idéia de sermos pequenos deuses, transformando a natureza à nossa imagem e semelhança"; e da Prof.a Dra. Ana Claudia Araújo (Univali), no ano passado, em artigo publicado em jornais, “plantar algumas espécies, mesmo que nativas, pode nos satisfazer, satisfazer nosso ego, nossa visão, mas de forma alguma restaura o bem que foi perdido”.

Um exemplo clássico de “restauração” de floresta é o caso da Floresta da Tijuca, no Parque Nacional da Floresta da Tijuca, que era ocupada com cafezais e cuja necessidade de “recuperação” surgiu na época do Brasil imperial, por volta de 1811, para proteger os mananciais. De 1862 a 1885 foram plantadas mais de 100 mil mudas. Foram gastos mais recursos do tesouro com o plantio de árvores do que com as desapropriações das áreas. Estudos posteriores revelaram que o plantio de árvores não demonstrou ter muita relevância. Aliás, hoje a Floresta da Tijuca está cheio de árvores exóticas devido a este plantio; até o Dr. Blumenau enviou sementes de SC para lá, segundo documentos históricos. Os fatores determinantes para sua “recuperação” foram os remanescentes de mata atlântica e a proteção do governo por meio de desapropriações. Em 1966, no livro “Floresta da Tijuca”, publicado pelo Centro de Conservação da Natureza, RJ, uma das ONGs ambientalistas pioneiras no Brasil, é mencionado o seguinte: “Nem 100 mil plantas multiplicadas algumas vezes repovoariam a Floresta (da Tijuca) se não houvesse um regime especial de proteção”.

Na região norte de Santa Catarina, a região do alto da serra Dona Francisca já foi desmatada há muitos anos e hoje está em adiantado estado de regeneração; os morros de Jaraguá do Sul e Guaramirim também já foram desmatados e hoje estão novamente cobertos de floresta nativa, já oferecendo condições para um número significativo de espécies prosperarem. Neste dois casos, não consta que alguém, em épocas remotas, seguiu o exemplo da Floresta da Tijuca. E, se essas áreas não sofrerem mais intervenções humanas, sobretudo nas partes mais preservadas, dentro de mais algumas décadas começarão a assumir, paulatinamente, as características de ecossistemas intactos, e, quem sabe, voltarão a cumprir plenamente sua função ecológica.

Evidentemente, devemos usar e abusar do plantio de árvores nativas da mata Atlântica, com propósitos comerciais, ornamentais etc., desde que não sejam usadas as poucas áreas de floresta em regeneração. Para efetivamente salvarmos a mata Atlântica, todo o nosso empenho deve ser no sentido de assegurarmos a preservação do que restou deste exuberante ecossistema, um dos mais importantes do mundo em termos de diversidade de vida, de acordo com dados científicos. O que restou é uma área tão pequena cuja exploração não vai resolver os problemas econômicos de ninguém. Se a destruição de 93% não acabou com a miséria, a destruição dos 7% restantes (que é a situação atual da mata atlântica no País), com certeza, também não. Muito pelo contrário, agravará ainda mais a miséria na zona rural e inviabilizará o desenvolvimento de nossas cidades, uma vez que as florestas garantem a produção de água, em abundância e qualidade.



Artigo enviado por: Germano Woehl Jr.
Pesquisador e Coordenador de Projetos do Instituto Rã-bugio p/Conservação da Biodiversidade
Guaramirim, Santa Catarina
site: www.ra-bugio.org.br
e-mail: germano@ra-bugio.org.br





 
 
 
 
 
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